sábado, 4 de dezembro de 2010

Refúgios!

Tô meio afastado do Blog. Mas correndo feito louco. Se é que louco corre. Depois da maratona do Recife, dia 15 de novembro passado, venho correndo, regularmente, três vezes por semana. Neste final de semana entretanto vou descansar.
Como não consigo ficar sem fazer nada, estou a fuçar algumas obras __ refúgios de minha inconstância.
A primeira, Os Ensaios (volume dois), de Montaigne. Assim o autor discorre no capítulo XIV:

Como nosso espírito se enreda em si mesmo.

É uma idéia engraçada imaginar um espírito balançando regularmente entre dois desejos equivalentes. Pois é indubitável que ele nunca tomará partido, uma vez que a reflexão e a decisão comportam desigualdade de valor; e se nos colocassem entre a garrafa e o presunto, com igual apetite de beber e de comer, sem a menor dúvida a única solução seria morrer de fome e sede. Para sanar esse inconveniente, os estóicos, quando lhes perguntam de onde nossa alma provém a escolha entre duas coisas indiferentes e o que faz que de um grande número de escudos peguemos um em vez de outro, sendo todos iguais e não havendo nenhuma razão que nos incline para a preferência, respondem que esse movimento da alma é extraordinário e desregrado, surgindo em nós de um impulso externo, acidental e fortuito. Antes se poderia dizer, parece-me, que não se apresenta a nós coisa alguma em que não haja alguma diferença, por leve que seja; e que, ou à vista ou ao toque, há sempre algo mais que nos atrai, mesmo que seja imperceptivelmente. Da mesma forma, se presumirmos que um barbante é igualmente forte em toda a extensão, é impossível, por impossibilidade total, que ele arrebente; pois por onde quereis que a ruptura comece?  E arrebentar em toda parte ao mesmo tempo não está na natureza. Quem ainda acrescentasse a isso as proposições geométricas que concluem, pela prova de suas demonstrações, que o conteúdo é maior que o continente, o centro tão grande quanto sua circunferência, e que descobrem duas linhas se aproximando constantemente uma da outra e nunca podendo unir-se, e apedra filosofal, e a quadratura do círculo, em que a razão e a experiência são tão opostas, talvez obtivesse um argumento para reforçar estas ousadas palavras de Plínio: “Solum certum nihil esse certi, et  homine nihil miserius aut superbius” (Não há nada certo excerto a incerteza, e nada mais mísero e orgulhoso do que o homem).

A segunda, Cândido, de Voltaire:

Um dia, em que passeava nas proximidades do castelo, pelo pequeno bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o doutor Pangloss que estava dando uma lição de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e dócil. Como a senhorita Cunegundes tivesse grande inclinação para as ciências, observou, sem respirar, as repetidas experiências de que foi testemunha; viu com toda a clareza a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar sábia, e pensando que bem poderia ela ser a razão suficiente do jovem Cândido, o qual também podia ser a sua.

E durmam com uma bronca dessas, como diz o filósofo “Cardinot”.

Nenhum comentário: