domingo, 21 de julho de 2013
A Avenida Norte Mudou
A avenida norte mudou. Para acessar a Cônego Barata, é necessário pegar à direita depois da Estrada Velha de água Fria, e contornar pela Rua Boa Vontade. Algumas vezes, tenho feito o trajeto, que não me é estranho de há muito. Lembranças da Rua Boa Vontade.
Reluto, pois que com efeito o que vale é o aqui e agora. Mas que muita vez me acomete essa “coisa” de retrospectiva (com Émile Durkheim, em “As Regras do Método Sociológico”: Coisa é todo objeto de conhecimento que não é naturalmente apreendido pela inteligência, tudo aquilo de que não podemos adquirir uma noção adequada por um simples processo de análise mental, tudo que o espírito só consegue compreender na condição de sair de si próprio, por via de observações e de experimentações, passando progressivamente das características mais exteriores e mais imediatamente acessíveis às menos visíveis e às mais profundas).
Vem do nada. Ou de uma foto. De uma simples lembrança, como na obra de Marcel Proust. Acho que acontece isso com todo mundo que já passou de certa idade. Não digo a obra monumental do autor, mas que, no mundo normal, dos simples mortais, dá pra fazer boa avaliação. Importa a quantidade e qualidade dos eventos rememorados.
Numa escala de zero a cinco. Sexo em lugares inusitados. Cinco.
Nos Braços de Erebus
Dormir nos braços de Erebus. A Babá de Bia, que tem 23 anos e ganha salário mínimo, fez plano numa funerária. Porra, pra que você quer um plano desses? Indaguei. Ela me respondeu que não quer problemas no seu enterro. Fiquei admirado. Mas não é que em parte ela tem razão; caixão, deslocamento, taxas, flores etc., tudo é caro.
Não tenho essa preocupação. Prefiro comprem caixão dos mais vagabundos e me enterrem no cemitério mais próximo. E tenho lá vontade de florear nada pra tapuru! Melhor seria virar pó (cremação) e adubar pé de “comigo ninguém pode”, o que não é barato todavia.
Falar em barato, lembrei-me do caso da rã. Meu falecido pai, por brincadeira (apenas de sua parte), encomendou a iguaria a um brejeiro. Na hora da entrega do batráquio entretanto assustou-se com o preço, pelo que o sujeito retrucou: como jia quem pode!?
E o brother me alertou que daqui a dez anos serei um velho. Não respostei, mas pensei: velhice é estado de espírito. E eu quero lá saber o que vai acontecer (comigo) daqui a dez anos? Só sei que agora estou a todo vapor. Enquanto estiver assim, está bom.
Mas sigo fielmente Schopenhauer: “É mais feliz aquele que consegue viver sem grandes sofrimentos do que o outro que vive cercado de alegrias e prazeres. (...) O tolo vive perseguindo a alegria da vida e acaba ludibriado, enquanto o sábio procura evitar o mal”.
E encontrei amigo que não via de há muito. Um ano mais velho do que eu. Morador de Boa Viagem. Confidenciou-me, toma 10 tipos diferentes de remédios por dia, carrega no peito dois “stents” e dorme com a ajuda de aparelho pra combater apnéia obstrutiva do sono. Com essa minha mania de médico, aconselhei-o a andar na avenida, no que ele me respondeu: Mas eu moro a três quadras da Avenida!
Mas o assunto da vez são as manifestações públicas de repúdio ao poder constituído. O pessoal tá com a gota indo pra rua. Alguns vão pra namorar, outros pra roubar, incendiar e tumultuar, e outros com efeito pra protestar. Não me vejo em condições de opinar, mas percebi na fala da presidente certa arrogância; e acho que ela deu golpe baixo (aproveitando o momento) ao anunciar a contratação de médicos cubanos. Sacanagem. O caminho não é por aí.
Seu eu fosse pra rua, ia protestar contra essa coisa de “carreira política”. Carreira política um cacete. Vão trabalhar seus filhos da puta! Acabar com essa coisa de o sujeito passar a vida se reelegendo. Não suporto ver Inocêncio Oliveira gaguejando na televisão.
O sapato no pedal
O sapato no Pedal. Impacienta-me certos tíquetes nervosos. Bater com caneta em mesa, balançar pernas, piscar olhos em demasia etc. Saio logo de perto, quando possível. Conheci um sujeito que balançava a cabeça constantemente (dava uns “supapos”). Era muito esquisito. A última vez que o vi tava curado. Perguntei-lhe se tinha consultado neurologista, se submetido a tratamento específico e coisa e tal. Ele me respondeu que começou a fumar maconha; um cigarro pela manhã, outro à tarde e mais um à noite, antes de deitar (posologia). Fica a dica.
Com efeito não suporto coisas repetitivas. Aqui, saio do particular e vou pra o geral. Feijão com arroz todos os dias, não obstante a combinação ser muito nutritiva, é dose pra elefante. Imagine sexo durante trinta anos com a mesma pessoa. Há quem diga o importante é se reinventar. Só se houver lavagem cerebral. . .no mínimo.
Mas volto aos tíquetes. Era “mão-de-obra” levar a bike pra UFPE. Desmontar, colocar e tirar do carro, centralizar a roda, ajustar os freios etc. A cada pedalada, um barulhinho: “Quit”. Várias pedaladas: “quit, quit, quit . . .”. Eita coisinha pra me incomodar. Decerto o ranger viria da fricção do freio no aro da roda. E, de fato, quando descia da bike, ajustava o freio e voltava a pedalar o ruído sumia. Porém depois de pouco tempo voltava. Fui deixando prá lá.
Convicção plena, inelutável, da origem do incômodo. Só algum tempo depois descobri que ele derivava da fricção do tênis no pedal, nada tendo a ver com o freio. Nas relações humanas muita vez acontece a mesma coisa . . .
domingo, 21 de abril de 2013
Preocupação é foda
Preocupação é foda. O meu finado irmão Afrânio Samuel, coração de elefante, sistema nervoso cabeça de alfinete, em certa fase da vida perseguia problemas. Quero te mostrar uma coisa. O que é? Vem ver aqui no banheiro. Fui. Coloca o ouvido juntinho, tá ouvindo?
Com muita insistência, sonzinho de ínfimo vazamento no aparelho de descarga. Rebati na hora: deixa essa “bosta” pra lá! Que aumente, quando inundar a cozinha a gente chama um encanador. Ele não se aguentava e morria de rir: é mesmo, é mesmo . . .
Estava no fundo do poço. Só queria ouvir de minha boca que aquilo não valia nada. Mas é assim, quando não há freio, o nível de preocupação vai aumentando, aumentando, até agigantar-se de tal forma que se enlouquece. Não que a loucura seja de todo ruim: “O homem é tanto mais feliz quanto mais numerosas são as suas modalidades de loucura” (Erasmo de Rotterdam, Elogio à Loucura; apesar de escrito no início do século XVI, o livro é muito atual).
Mas há os “normais” que se preocupam com a vida dos outros, numa disputa desmedida. Certa feita, estava eu à espera de sessão de fisioterapia, lendo “contigo” com capa puída de três anos atrás, adrede posta numa mesinha para os pacientes (literalmente), quando presenciei duas senhoras travarem embate sobre a qualidade (especialidade) e quantidade dos médicos que consultavam. De otorrino a ginecologista, passando por ortopedista, oftalmologista, endocrinologista etc. Até nisso.
E se preocupam com a opinião dos outros. Aqui, o “mundo” é vasto. Da aparência ao desempenho sexual.
Mas isso só ocorre, na minha modesta opinião de observador, na dita classe média, que com efeito dorme atolada em preconceitos. A mente é suja de antemão: basta um homem e uma mulher despidos se esfregarem às 8 hs da noite em frente a um shopping para concluir-se pelo atentado violento ao pudor!
Mecanicismo
Mecanicismo grosso modo é uma teoria filosófica determinista segundo a qual todos os fenômenos se explicam pela causalidade mecânica ou em analogia à causalidade mecânica (causalidade linear ou, instrumentalmente, como meio para uma causa final).
Mas tem certas coisas que não se explicam. Vou dizer uma na bucha: amor. Sobre o sentimento, assim se expressou o poeta maior português:
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
Há certos indícios. Vá lá a atração, que não prescinde de antemão de certas particularidades físicas, seja aperitivo, mas com efeito nem perto chega. O respeito, a consideração, a amizade, o companheirismo, tudo enfim leva ao sentimento, mas não se pode dizer constituam premissas necessárias. A não ser assim, o “gaiúdo não tinha tanto amor pela traíra. Interessante o amor porvir. Nunca te vi sempre te amei. Aqui, pura invencionice da solidão.
Alguns entendem o amor que fica, ou o amor verdadeiro seja o amor de Pica. Em realidade, pode-se tripartir o amor em Agapê, Fileo e Eros. O primeiro é o incondicional: eu te amo mesmo que tu não me ames. O segundo, é o retributivo: retribui-se o amor na medida do amor que se recebe. O último, o relacionado ao sexo.
Não acredito este último seja o que fica. Se fosse assim, as prostitutas, experts na arte do prazer, “prenderiam” todos os seus amantes. Demais, sexo é sexo. Fazer “amor” é bom em si. Sinceramente, com pouco amor é bem melhor.
Mas retorno às causas. Há mais mistérios entre o amor e as suas causas do que julga nossa vã psicologia.
O discurso é o mesmo.
Do pó vieste e ao pó retornarás (Gênesis, 3:19). Se bem que agora pode-se fazer liquefação, vulgo hidrólise alcalina; vira-se líquido. Tudo é cíclico. O mundo dá voltas.
E me perguntam por que voltei ao ônibus. Sei lá. Acho que pra ver gente. Pois que gente é gente em qualquer lugar. Cabeça, olhos, braços, pernas, barriga, sexo. O resto é roupa.
Dia desses, uma ruiva. Cabelinho temeroso do mais tênue chuvisco. À base de chapa pequena. Jeans apertado. Sentada confortavelmente naquele sol das 13hs. Headfone e um livrinho.
Fiz vista comprida: “Memórias de minhas putas tristes”, de Gabriel Garcia Marquez. Pois é assim. Pensar que há capas que nunca leram um romance na vida, e só são capas.
E os juízes se acham Deuses. Acima de tudo e de todos. Fiz uma prova do Direito Romano na FDR que uma das perguntas era a seguinte ipsis litteris : “O primeiro Rei de Roma foi? _ _ _ _ _ _”
Deve ser por isto: o grande cabedal que se consegue na graduação. Ou será pelas difíceis interpretações das laboriosas legislações confeccionadas pelos nossos insignes parlamentares?
Sei não. E aludo ao grande poeta Inglês:
Hamlet: Pode-se pescar com um verme que haja comido de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme.
O Rei: Que queres dizer com isso?
Hamlet: Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo.
domingo, 31 de março de 2013
Alienígena!
Sinceramente, não sou
daqui. Alienígena. Com efeito, nasci em Angélicas. Se estamos situados no cu do
mundo, vim de suas entranhas mais profundas. Não tenho cá muitas lembranças (relampejou
“De volta aos seios de Duília”), lembro todavia o barulho do “motor da Luz”.
Claridade após as dezoito horas, só com a geringonça ligada.
Mas, como ia dizendo,
sou um peixe fora d’água. Fui três vezes a campo de futebol: duas no arruda e
uma na Ilha. Em uma das vezes, levei um banho de xixi depositado numa lata
adrede arremessada àquele fim. Ainda bem que escapei do recipiente . . .
Noutra, no Arruda,
fui pra o setor de cadeiras. Até que me empolguei com algumas jogadas. Tinha um
negão do meu lado tomando cerveja que era grito só. Determinado momento, gol do
santa cruz. O sujeito me deu um abraço inesperado, pelo que pensei: tá me estranhando? Ficou só na esfera mental.
Outra. Carnaval. Pra
não dizer que não, fui uma vez a Olinda. Tomei uma bebida de nome “Pau dentro”.
Depois de pouco tempo fiquei todo “encalombado”, parecia até que tava com
“bexiga”. E aquele negócio de bloco passa, não passa; aquele sol da porra. Um
“mói” de bêbados sem tamanho.
Como já disse
alhures, no dia que me virem nesses tipos de eventos os neurotransmissores com
certeza estarão em baixa.
A onda agora é falar
de Feliciano. E eu tenho lá nada a ver com esse FDP. Pra mim ele é florzinha, o
que não opera relevância no cargo que ocupa todavia, pois que a particularidade
em nada afeta o caráter do sujeito. Malgrado, ele é safado, estelionatário.
Pedir cartão do banco e senha e ameaçar o fiel de suprimir (falsas) recompensas
divinas é sacanagem.
Mas quem não é sacana
naquele congresso? Sarney? Será que Sarney seria melhor do que Feliciano na
presidência da comissão em questão? Renan Calheiros seria melhor? Pois esses
senhores estão no comando do Senado “Ad aeternum”. Severino Cavalcanti, aquele
“buchudinho” de João Alfredo, foi presidente da Câmara dos Deputados!
Poderia também tirar
uma foto e colocar na internet dizendo que o Feliciano não me representa. E não
me representa mesmo. Como não me representam Renan Calheiros, Eduardo Henrique
Alves “et caterva”.
Ninguém se lembra
mais dos dólares na cueca do irmão de Genoíno, que, não obstante condenado pelo
supremo, foi empossado deputado federal. Esse país é uma zona. O mal não é
Feliciano; é coisa maior.
E perguntaram a Gustave
Flaubert quem era Emma Bovary, no que ele respondeu: Emma Bovary c´est moi. Essa coisa de gostar é “foda” mesmo.
Recentemente, li pela enésima vez Quinca Borba, de Machado de Assis. A história
é de Rubião: “Ao vencedor as batatas”. Mas o autor empurra no meio outras
historinhas que se o leitor for ligeiro deixa escapar.
Uma dessas é o romance de Carlos Maria e Maria Benedita (eita nome feio da porra). O
Carlos Maria é bonitão, conquistador. Maria Benedita é acanhada, feinha. Rubião
gosta da mulher do Palha, Sofia, que gosta do Carlos Maria, que não gosta de
ninguém.
Sabendo do imenso
amor que Maria Benedita tem por ele, e influenciado pela prima, Carlos Maria casa-se com ela e o casamento se mantém na
base do gosto de você porque você gosta de mim. Mas não é que é assim? A não
ser masoquista, quem gosta de quem não gosta da gente?
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